
"O mais importante é não parar de questionar."
(Albert Einstein)

"O segredo para se andar sobre as águas é saber
onde estão as pedras."

"Às vezes, só uma mudança de ponto de
vista é suficiente para transformar
uma obrigação cansativa numa interessante oportunidade."
(Albert Flanders)

"Ética é a obediência ao que não
é obrigatório. Você a pratica não por
cobrança ou receio de punição, mas sim por
razões interiores." ( Jon Kabat-Zinn) |
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ARTIGOS
Ombudsman Interno: Sua Empresa Ainda vai ter um
Por: Cristina Balerini
Você sabe o que significa ombudsman? Ombudsman é uma palavra
de origem sueca que surgiu em 1809 quando o Parlamento da Suécia
decidiu ter um representante do cidadão dentro do Parlamento. Ombuds
quer dizer representante e man cidadão, ou seja, ombudsman quer
dizer representante do cidadão.
Mas o que faz essa pessoa? Sua função principal é
defender as manifestações do cidadão perante algum
órgão, seja uma reclamação, um elogio ou uma
sugestão. É o cargo dado a uma pessoa que vai ter relação
direta com o dirigente da instituição, seja ela pública
ou privada, para garantir um eficiente canal de comunicação
entre o emissor e o receptor de serviços. Estamos falando aqui
do conhecido ombudsman externo.
Com o passar do tempo, e as necessidades cada vez mais prementes das empresas
estreitarem as relações com seus empregados, criou-se a
figura do ombudsman interno. “A sua importância é tão
grande quanto a do ombudsman externo. O público interno está
entre os stakeholders mais importantes da empresa e precisa deste canal
para que a relação com a empresa seja transparente e geradora
de satisfação. Fala-se muito do peso dos recursos humanos
no desempenho das organizações. O profissional designado
como ombudsman é uma espécie de ‘conselheiro’
que dá orientação e suporte aos eventuais casos de
insatisfação das pessoas que fazem a empresa, garantindo
sua lealdade”, explica Ana Maria Leandro, diretora da AML Marketing
de Relacionamento e consultora de CRM.
QUEM É ELE?
Embora a função possa parecer estranha em um primeiro momento,
vem ganhando espaço entre empresas como Caixa Econômica Federal,
Tejofran, Softway e GE. É sempre preferível que seja uma
pessoa que não tenha nenhuma relação mais profunda
com a empresa, para que não seja “contaminada” pela
sua cultura. O principal objetivo desse profissional é resolver
problemas, aperfeiçoando o relacionamento entre empresas e empregados.
A função passou a existir a partir do momento em que os
funcionários questionaram o por quê de apenas clientes externos
serem ouvidos pelas empresas. “Ainda é raro encontrarmos
o ombudsman interno, pois o ombudsman do cliente é visto com mais
freqüência, o que é um ledo engano por parte das organizações,
pois a satisfação do cliente externo começa pela
satisfação do cliente interno”, avalia Sylvio Riccó,
consultor especializado na implantação de ouvidoria nas
empresas.
Para quem conhece a função do ombudsman externo, vale dizer
que as regras e objetivos são praticamente os mesmos: ele aceita
as queixas como se fossem suas e tem autoridade para operar nas entranhas
da organização de tal maneira que ela gere respostas rápidas,
criativas e definitivas para o problema. Sua obsessão em resolver
os problemas da maneira mais rápida possível deve ser semelhante
à do ombudsman externo. A diferença entre eles reside apenas
nas características das relações que a organização
mantém com cada um dos dois públicos: externo e interno.
O público interno se destaca pela maior proximidade e profundidade
dessas relações, por sua intimidade com a empresa. Em função
disto, a regra número um para quem quer ser ombudsman é
o sigilo – a fonte da queixa jamais deve ser revelada. “É
a garantia do sigilo que encoraja as pessoas”, comenta o presidente
da Associação Brasileira dos Ouvidores/Ombudsman (ABO),
Edson Luiz Vismona. A queixa pode ser levada a público, mas a fonte,
nunca. Fique claro que, ao contratar um ombudsman interno, a empresa passa
a correr o risco de ver toda sua estrutura mapeada e de problemas nunca
antes imaginados virem à tona.
O próximo passo é definir a estratégia de ação,
que inclui priorização, validação das queixas
com os respectivos alvos, orientação e encaminhamento das
soluções e finalmente, retorno ao reclamante, ao resolvente
e à organização. Cada situação exige
análise cuidadosa, mas principalmente aquelas que envolvem questões
de relacionamento humano necessitam também de grande sensibilidade
e percepção. Na verdade, quem resolve o problema não
é o ombudsman, ele atua apenas como o meio-de-campo entre o reclamante
e o reclamado. Ele orienta qual a melhor estratégia e atitude a
ser tomada, apenas isso.
Vismona aconselha que a função não deve ser exercida
por um profissional da área de recursos humanos, apesar de estar
diretamente ligado a ela. “Dessa forma, o profissional terá
mais liberdade para atuar em toda a empresa. Ele não pode estar
restrito a um departamento, pois não teria liberdade de ação
e poder de influência, indispensáveis para que ele interfira
nos processos de modo a transformar a organização”.
E Riccó, complementa: “este profissional deve se reportar
diretamente ao presidente ou ao conselho, pois a autonomia e independência
são fundamentais”. Para Ana Maria, não existe um padrão,
mas há uma tendência para que ele tenha formação
em psicologia ou comunicação.
EXPERIÊNCIAS
No Pão de Açúcar, uma das primeiras empresas a criar
a figura do ombudsman externo, com a renomada Vera Giangrande, o papel
do ouvidor é assumido por profissionais que atuam na área
de recursos humanos. Carlos César, gerente da área de relações
com o cliente interno, conta que não há, desde que a área
foi criada, no final de 2002, preocupação em ter uma pessoa
especificamente para atender o funcionário.
“Essa área compreende a comunicação interna,
saúde ocupacional e qualidade de vida, ou seja, contempla as relações
do empregado com a empresa. Realizamos um trabalho pró-ativo, onde
todos são responsáveis diretos pela criação
de um clima favorável dentro da empresa”, conta ele.
A empresa tem como preceito estimular os seus 60 mil funcionários
a resolverem conflitos internos. Segundo César, o conceito de organização
paternalista deve cada vez mais ser deixado de lado em prol da parceria.
“Temos uma linha direta com nossos funcionários pela qual
recebemos sugestões e reclamações, mas sempre o orientamos,
primeiramente, a tentar resolver o problema diretamente com o causador
dele”. O setor recebe, em média, duas ligações
por mês, número esse extremamente baixo levando-se em conta
o universo da empresa.
Mas nem sempre é fácil para um subordinado falar diretamente
com seu superior sobre um problema que afeta a ambos. “Realmente
não é, por isso desenvolvemos aqui um programa de liderança
chamado ‘Gerente de Gente Feliz’, que tem por base preparar
os líderes para que efetivamente atuem como gestores. Isso oferece
o embasamento que precisamos para que as relações sejam
cada vez mais abertas”, explica César.
A confiança, comenta César, é a base de todo o trabalho.
“Não atendemos ligações de pessoas que não
querem se identificar. Explicamos a elas que mantemos sigilo absoluto
em relação a todas as procuras que temos, mas a confiança
se ganha com o tempo. Já tivemos problemas aqui por atendermos
pessoas que não quiserem dizer seus nomes”.
Outra empresa que criou a figura do ombudsman, em 1999, foi a a Softway
Contact Center. “Inicialmente o objetivo foi de realmente criar
um canal isento entre a empresa e seus colaboradores, fazendo com que
eles tivessem acesso a uma pessoa que ouviria os seus problemas e veria
a melhor forma de encaminhá-los dentro da empresa. Mas com o crescimento,
vimos a necessidade de que esta estrutura fosse ampliada”, conta
Topázio Silveira Neto, diretor de RH e administração.
Atualmente a empresa conta com outro canal, o SACI - Serviço de
Atendimento ao Cliente Interno -, que funciona por telefone. “Por
meio de um ramal e um atendente especializado, o colaborador pode fazer
seus questionamentos ou levantar suas duvidas e/ou sugestões, com
a certeza de receber um feedback em até 48 horas”.
O sistema funciona atualmente em todas as unidades da empresa (São
Paulo, Jundiaí e Florianópolis) e recebe um número
adequado de ligações, em sua grande maioria de sugestões
de melhoria. Além do SACI, a Softway conta com uma área
especializada - Superintendência de Pessoas – que oferece
atendimento pessoal para aqueles que não querem utilizar o SACI.
“Para outros casos mais graves temos o SAPI - Serviço de
Apoio Psicológico -, que atende individualmente aqueles colaboradores
com casos mais graves e que precisam de acompanhamento e/ou encaminhamento
fora da empresa”, complementa Neto.
COMO DEVE PROCEDER A ORGANIZAÇÃO
Em primeiro lugar, permitir o trânsito livre do ombudsman por todas
as áreas. O alvo das queixas, ocupe ele a posição
operacional ou de chefia, deve estar preparado e disposto a aceitar as
queixas e tentar resolvê-las. “Para que isso seja um projeto
da empresa, são importantes a independência e a autonomia.
É fundamental, ainda, a definição de mandato do profissional
e de estabilidade por algum tempo após o final desse mandato. O
ombudsman deve estabelecer um plano de trabalho, com estratégias,
metas, procedimentos e avaliações. A prestação
de contas deve ser feita por meio de relatórios, com gráficos
e números; com isso garante-se que as mudanças sejam realizadas.
O ombudsman é contratado da empresa mas não precisa ser
funcionário; exerce sua função por um curto período
– cerca de dois anos; não tem chefe nem subordinados; não
pode perder detalhes; tem de ser justo e ético”, explica
Vismona.
Cada vez que um nível de decisão deixar de ser suficiente
para resolver a questão apresentada, é o nível hierárquico
imediatamente superior que deve ser procurado, até chegar à
presidência, se esse for o caso. A sugestão do funcionário,
vale lembrar, é sempre valiosa, e por isso deve ser ouvida com
atenção. Muitas vezes a relação hierárquica
inibe o funcionário, e cabe ao ombudsman facilitar essa relação.
“Se a empresa não toma a iniciativa de ouvir seus talentos,
o sindicato ouve. E age! Um ombudsman garante diminuição
do poder do boato e mais segurança quanto ao futuro, fazendo com
que processos traumáticos, como fusões, programas de corte
de pessoal e até mesmo a fragilidade da empresa no mercado possam
ser entendidos e mais facilmente digeridos pelo público interno”,
avalia Ana Maria.
A organização passa a colher bons resultados, principalmente
o aumento da confiança entre ela e seus profissionais. “Somente
o fato de saber que existe um controle indireto das relações
pessoais faz com que ocorra melhoria do desempenho individual, levando
o grupo à tão desejada alta performance. Confiança
se conquista e precisa-se de tempo para que todo o grupo sinta-se confortável
com esta nova cultura, mas a postura de orientador e não de juiz,
além do enfoque de equilíbrio das relações,
certamente levarão ao sucesso desta atividade”, diz Riccó.
Mas Ana Maria faz um alerta: “pela relativa novidade do cargo, há
mais erros do que acertos nas implantações. O mais grave
é a falta de comprometimento da direção ou a pouca
disposição para aceitar questionamentos e rever processos”.
O QUE É PRECISO PARA SER UM OMBUDSMAN?
"Ter garra, gostar de se relacionar com o público, saber ouvir
com respeito, ser dinâmico e ter bons conhecimentos gerais",
enumera Vismona. Não existe no Brasil nenhum curso especifico para
a área de ouvidor ou de ombudsman. "Temos médicos,
advogados, jornalistas, pedagogos, psicólogos, todos trabalhando
como ombudsman. Realizamos, na associação, cursos de capacitação,
com 40 horas, preparando o profissional para atuação externa
ou interna. Mas procuramos identificar, primeiro, se a pessoa realmente
tem vocação para isso”, diz Vismona. O objetivo do
curso é preparar os interessados para enfrentar esta posição
e fornecer as noções mínimas de marketing, psicologia,
relações interpessoais, legislação, cidadania,
entre outras coisas necessárias para que o trabalho de ombudsman
seja realizado com êxito.
Para Riccó, o ombudsman também deve ter escuta apurada (sensibilidade/percepção),
conduzir os processos com imparcialidade, ser agente de mudanças
e não de punição, atuar sem preconceito ou pré-julgamento,
ter autonomia e consciência dos seus limites, conhecer bem serviços
e produtos da empresa, pensar, argumentar e agir de maneira positiva,
facilitar a solução dos conflitos, agir com ponderação
e maturidade.
A conquista do público interno é essencial à credibilidade
e à conscientização dos profissionais da empresa.
Todos têm que saber que há uma ouvidoria, quem a exerce,
quais são os objetivos e de que forma cada um se integrará
a esse processo. Esse convencimento e transparência podem ser obtidos
com palestras, boletins, reuniões e conferências. Com isso,
estabelecem-se parcerias internas. Sugere-se uma equipe de apoio com,
no mínimo, uma secretária e um assistente. Além disso,
é fundamental que a equipe conte com uma linha telefônica,
computadores, aparelho de fax, e-mail e, se possível, material
de divulgação (cartazes, caixas de sugestão etc.).
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